Apesar de um início promissor, a última semana voltou a apresentar períodos de forte pessimismo nos mercados, com intensa elevação dos prêmios de risco de países europeus com dificuldades financeiras – mais notadamente Grécia, Portugal e Espanha – movimento que afetou negativamente preços de ações e commodities em todo o mundo, se refletindo também na bolsa brasileira, cujo índice Ibovespa cedeu 4%.
Após os dados controversos do mercado de trabalho norte-americano na sexta-feira, os investidores aproveitaram as cotações debilitadas dos ativos e retornaram às compras no final do pregão, permitindo aos índices de bolsas de Nova York encerrar o dia do lado positivo. Esta breve melhora também possibilitou à Bovespa fechar a sexta bem acima da mínima observada ao longo do dia, embora ainda em queda.
A semana se abre sob a tentativa de um alívio nos mercados internacionais, mas ainda com grande desconfiança. Em reunião realizada durante o final de semana, os países do G-7 não apontaram nenhuma solução para as crises de dívidas de países europeus, embora os membros da União Européia tenham rejeitado o apoio do FMI para o caso da Grécia, afirmando que esta é uma questão a ser resolvida internamente no bloco. Em relação aos EUA, o secretário do Tesouro Timothy Geithner refutou a hipótese do país vir a perder a classificação de risco AAA, respondendo ao alerta feito pela agência Moody´s na última semana. De todo modo, a situação das nações mais desenvolvidas segue problemática e a reversão completa desta percepção mais negativa parece distante.
No Brasil, a inflação e o risco do aumento dos juros seguem no foco. O IPCA de janeiro subiu 0,75%, a maior variação mensal desde maio de 2008, causando nova elevação das expectativas de inflação em 2010 para 4,78%, de acordo com o Boletim Focus desta manhã. A ata da reunião do Copom de janeiro trouxe uma clara mudança de tom por parte do BC, que passou a apontar mais abertamente os riscos à manutenção do cenário benigno para a inflação, deixando aberta a possibilidade de uma elevação dos juros em breve – embora não tenha sugerido iminência neste movimento, de modo que seguimos esperando o primeiro ajuste para abril. Apenas uma piora mais acentuada das condições internacionais poderia adiar – ou talvez evitar – este ciclo de elevação da Selic em 2010.
A agenda desta semana é menos intensa, mas ainda traz alguns indicadores importantes. Nos EUA, destaque para dados do varejo e orçamento. Na Europa, será divulgado o PIB do 4º trimestre e produção industrial. No Brasil, além dos primeiros índices de inflação do mês, também serão conhecidos números da indústria (CNI).
Nos mercados, ainda tendem a predominar a volatilidade e a falta de confiança entre os investidores, diante das incertezas sobre a magnitude do ajuste atual e do sentimento de fragilidade em torno das economias maduras. Após as quedas recentes, a renda variável já apresenta boas oportunidades, mas sem o importante suporte dos investidores estrangeiros, o desempenho de curto prazo fica limitado.
Para Ficar Atento – Drivers da Semana
· Dados industriais CNI – BRA: Os indicadores de janeiro serão divulgados nesta quarta-feira, merecendo destaque o nível de utilização da capacidade instalada (NUCI), que é um dos importantes sinalizadores do ritmo de diminuição da ociosidade de fatores. Quanto mais rápido subir o NUCI, mais próximos estaremos de um movimento de alta dos juros por parte do BC.
· Inflação – BRA: Após a forte pressão inflacionária observada em janeiro, os primeiros dados de fevereiro podem indicar uma incipiente tendência de desaceleração, embora ainda persistam alguns fatores de impulso aos preços. Especificamente, vale com maior atenção o comportamento do IPA industrial, no IGP-10 e 1º prévia do IGP-M, cuja alta pode ser repassada ao varejo futuramente.
· Consumo – EUA: Os principais dados de atividade nos EUA desta semana são as vendas no varejo (quinta) e a prévia de fevereiro do índice de confiança do consumidor (sexta).
· Atividade – Europa: Diversos números de atividade econômica serão divulgados ao longo da semana, com destaque para o PIB do 4º trimestre e da produção industrial de janeiro da Zona do Euro, além da produção industrial do Reino Unido, também de janeiro. Devem continuar a mostrar melhora das economias, porém em ritmo modesto.
Produção Industrial – apesar do recuo na margem, composição é benigna
Pelo segundo mês consecutivo a produção industrial apresentou recuo na margem, embora tenha mostrado forte alta ante dez/08. O ajuste do setor de duráveis tem contribuído para esta acomodação, mas o bom desempenho dos segmentos de insumos e bens de capital sinaliza que a produção total voltará a crescer nos próximos meses.
Em dezembro, a produção industrial teve pequena contração de 0,3% na comparação com novembro, representando o segundo recuo consecutivo da série mensal. Diante de uma base de comparação muito frágil, houve expansão de 18,9% ante dezembro/08, mês no qual a produção de importantes setores foi praticamente paralisada em meio aos efeitos da crise. Com os números de dezembro, a produção oficial medida pelo IBGE fechou 2009 com queda de 7,4%, o pior resultado desde 1990.
Apesar deste novo recuo na margem, a análise dos números por setores mostra um cenário favorável para a indústria. Após uma recuperação forte, o setor de bens duráveis está ajustando seu ritmo, o que contribuiu para as quedas dos últimos dois meses. Por outro lado, a percepção de que a demanda está em expansão mais consolidada leva a um desempenho crescente dos setores de bens de capital e de bens intermediários (insumos), sinalizando uma boa perspectiva para a produção nos próximos meses.
Conforme ficar mais claro o ritmo do consumo e forem ajustados os níveis de estoques, é de se esperar que a indústria, como um todo, volte a apresentar expansão na margem – enquanto as comparações anuais continuarão fortes pela base fraca de 2009. De toda maneira, não esperamos uma velocidade excessiva no setor, estimando para o ano de 2010 uma expansão em torno de 7,5% a 8,0%, o que somente recuperaria as perdas observadas no ano passado.
Um dos setores mais importantes da indústria, o automotivo, anunciou na última semana os números referentes a janeiro – sendo o primeiro indicador coincidente da produção industrial do mês. Segundo a Anfavea, a produção de veículos atingiu 243 mil unidades em janeiro, 31% acima do registrado no mesmo período de 2009 e ligeiramente abaixo do número de dezembro. Já as vendas cresceram 8% na comparação anual, mas cederam 27% ante dezembro, cujo desempenho havia sido muito forte. Ou seja, aqui também se nota um momento de ajustes, em meio à reversão das reduções de IPI promovidas.
Índices de Inflação e Expectativas Futuras
A inflação encerrou janeiro bem pressionada, tanto nos índices aos consumidores, como também no atacado. Apesar de boa parte da alta do IPCA ter sido causada por fatores não recorrentes, há também indícios de aceleração, como observado nos núcleos. No atacado, a forte alta do IPA industrial também acende uma luz amarela.
O fechamento dos principais índices de janeiro manteve o sinal de aceleração da inflação neste início de ano, com variações mensais mais elevadas das séries recentes. O IPCA apresentou alta de 0,75% em janeiro, a maior desde maio de 2008. Um atenuante para este dado consistiu na contribuição de 0,24 pp. decorrente de apenas 2 itens (ônibus urbano e combustíveis), sendo que tais impactos vão naturalmente se dissipar em breve. Outro foco de pressão veio dos alimentos (1,13%), com altas importantes em diversos segmentos, como cereais, açúcares, tubérculos, frutas, hortaliças e carnes, em parte afetados pela sazonalidade do período. Desta forma, não se espera que tais pressões sejam mantidas no restante deste trimestre.
Por outro lado, não se pode negligenciar o fato de que há sinais de mudanças no patamar da inflação, captados pelo comportamento altista dos núcleos e do índice de difusão. Entre os núcleos, a nova medida por dupla-ponderação acelerou para 0,60%, acumulando 4,95% nos últimos 12 meses, tendência também observada no núcleo suavizado (0,48% no mês e 4,43% em 12 meses).
Já o índice de difusão alcançou 68,8% em janeiro, o mais elevado desde maio/08, indicando um maior número de itens com reajuste de preços neste mês.
Com o dado de janeiro, o IPCA passou a acumular 4,59% em 12 meses, voltando a superar o centro da meta anual e a maior variação nesta base desde junho/09. Cabe acompanhar atentamente a evolução dos próximos IPCs ao longo de fevereiro, a fim de avaliar se as pressões recentes poderão gerar repasses indesejáveis em outros preços.
Outro aspecto que tem adicionado preocupações quanto á trajetória da inflação nos próximos meses consiste na reação dos preços industriais no atacado, que tem pressionado os IGPs correntes. Em janeiro, o IGP-DI fechou com alta de 1,01%, o maior desde outubro/08, muito afetado pela variação de 1,37% no IPA industrial. Os movimentos deste grupo indicam que a cadeia produtiva já registra impactos do aquecimento da atividade, o que normalmente afeta o comportamento dos preços aos consumidores, como ilustrado pelos preços livres do IPCA a seguir.
Nesta manhã, a FGV anunciou o IPC-S da 1º semana de fevereiro, cuja variação atingiu 1,33%, pouco acima do fechamento de janeiro (1,29%). Ao longo desta semana ainda teremos outros levantamentos iniciais de fevereiro (Fipe, IGP-10 e 1º prévia do IGP-M).
Expectativas Futuras: Reflexo do IPCA de janeiro acima do esperado, a mediana das projeções para 2010 voltou a subir, de acordo com o Boletim Focus anunciado pelo BC nesta segunda-feira, para 4,78%.
Renda variável – estrangeiros se retraem e Bovespa sente a ausência
A piora do ambiente externo e os ganhos acumulados das ações em dólar desencadearam um movimento de retirada dos capitais estrangeiros da bolsa nos últimos dias. Isso contribui para o mau desempenho dos papéis neste ano, cuja reversão dependerá da acomodação do cenário internacional nas próximas semanas.
Como sintoma – e também uma das causas – da piora das condições da renda variável neste início de ano, tem havido saídas freqüentes de capitais estrangeiros da Bovespa nas últimas semanas. No acumulado do ano até o dia 03/fev, o fluxo está negativo em R$ 2,14 bilhões, número que deve ter aumentado no dia 04, quando os mercados tiveram um comportamento altamente pessimista.
Não por acaso, o Ibovespa acumula perdas em torno de 10% no período, sendo um claro indício da forte relação existente entre o ímpeto comprador dos investidores estrangeiros e o desempenho da bolsa. Considerando oscilações mensais, nos últimos 49 períodos, em 37 foi observada esta correlação positiva (75% dos casos).
Adicionalmente ao fluxo negativo, a própria presença do investidor estrangeiro neste início de ano se mostra menor na bolsa brasileira. A participação destes investidores no total dos volumes negociados no mês ficou em 28%, o mais baixo desde 2004. Além da reversão do ambiente externo nas últimas semanas, pode ser apontado como causa para este resultado o acúmulo significativo de ganhos das ações brasileiras em dólar, levando à zeragem de posições, ao menos temporariamente.
Fica a expectativa para o retorno destes recursos após a correção recente do índice em dólar, cuja queda foi amplificada pela depreciação do real. Porém, a acomodação do cenário externo também é necessária para reverter este mau humor, fato que provavelmente não deverá ocorrer no curtíssimo prazo, mantendo a cautela nos próximos dias.
Economia Internacional
Os dados continuam apontando inconsistências na recuperação da economia norte-americana. No mercado de trabalho, a taxa de desemprego cedeu inesperadamente, mas ainda houve corte líquido de vagas em dezembro. Entre os índices ISM, a evolução mais positiva do setor industrial não tem sido observada no setor de serviços.
Estados Unidos: Os números da economia dos EUA seguem contraditórios, alternando sinais positivos e ainda frágeis em diferentes categorias.
O mercado de trabalho representou bem esta percepção controversa, ao apontar novo corte de vagas em janeiro (20 mil), além de mostrar revisão para pior nos dados de dezembro (de -85 mil para -150 mil). Por outro lado, a taxa de desemprego recuou inesperadamente, para 9,7%, após ter permanecido em 2 dígitos por três meses consecutivos. É provável que os próximos meses voltem a mostrar contratações líquidas de trabalhadores, revertendo o sinal negativo de mais de dois anos – entretanto, a taxa de desemprego ainda está sujeita a permanecer excessivamente elevada por um longo período.
Entre os índices ISM de atividade, a sinalização não foi diferente, com boa recuperação do setor industrial, mas estagnação do setor de serviços em torno da linha d´água (50 pontos), que divide um cenário de contração e de expansão. No segmento manufatureiro, o ISM atingiu 58,4, o mais elevado desde o final de 2005, com todos os sub-índices se sobressaindo – inclusive o de preços pagos, indicando risco futuro de alta dos preços.
Entre os balanços corporativos, o cenário tem parecido mais alvissareiro. Das 500 empresas que fazem parte do índice S&P500, 291 já anunciaram os resultados do 4º trimestre, com 170 apresentando melhores números ante o 4T08 (aumento do lucro / queda do prejuízo) e 224 superando as expectativas dos analistas.
Para esta semana, a agenda é menos intensa, merecendo destaque os dados do varejo, confiança do consumidor, orçamento mensal e balança comercial.