A regra é básica: doze meses de trabalho dão direito a 30 dias de descanso. Certo? Na prática, nem sempre isto funciona. Com jornadas atarefadas e cobranças que saltam de todos os lados, funcionários esquecem de reservar um tempo para pensar nas férias. O que era para ser algo comum, torna-se exceção em uma época onde a competitividade acirrada no mercado de trabalho e as rotinas pesadas levam profissionais, sobretudo executivos de alto escalão, a deixarem a parada anual em segundo plano. Mas consultores alertam para problemas que isso pode acarretar e aconselham: tire um período para espairecer.
Claro que esse cenário não é generalizado. Há aqueles executivos que fazem questão de um intervalo de férias, nem que, para isto, os trinta dias assegurados por lei sejam partilhados em dois ou três períodos. A CIO da Vicunha, Janet Sidy Donio, é um destes exemplos. Adepta ao turismo de aventura, já viajou até para o deserto do Atacama para pedalar. Incentivada pela própria companhia, ela agenda seu período de descanso regularmente e tenta passar o mesmo entusiasmo para sua equipe.
"Férias são fundamentais", dispara. "Nem que seja um período curto para dar uma reciclada. Sair do ambiente de trabalho nos faz voltar mais tranquilos. Não consigo ficar mais de um ano sem férias", completa. Janet explica, entretanto, que já passou dois anos sem o descanso anual, mas por um motivo justificável: houve troca na direção da companhia. "Mas não é padrão."
Essa valorização que a CIO da Vicunha confere às férias é algo bem-visto em muitas empresas e demonstra confiança no trabalho executado e, sobretudo, na equipe. De acordo com Fábio Saad, gerente da Robert Half, consultoria especializada na seleção de executivos, de nada adianta o profissional ficar aprisionado nas tarefas e não renovar as energias. "Férias agregam à vida profissional. [A pessoa] reflete sobre negócios e volta até com novas ideias e soluções para problemas. Além disso, é preciso ter equilíbrio e se preocupar com o outro lado da vida, o da família."
Uma pesquisa sobre férias elaborada pela Robert Half em 2008 mostra uma clara divisão sobre os aspectos do descanso anual. Os entrevistadores questionaram 4.516 executivos sobre se eles sempre tiravam férias no período devido. Mais da metade (55%) respondeu que não. O estudo contou com participação de profissionais de 20 países, entre eles o Brasil. Para os que responderam com negativas, os pesquisadores questionaram o motivo. Grande parte - 49% dos 2.478 que disseram não tirar férias no período devido - afirmou que deixa o descanso de lado por ter muito trabalho a fazer. Outros 22% afirmaram que não gostam de ficar longe do escritório.
Renovando baterias
Mas ainda que haja muitos afazeres, especialistas enfatizam que é preciso um momento para relaxar. O corpo precisa deste equilíbrio. "Muito tempo sem sair de férias acaba sobrecarregando a mente", avisa Elaine Saad, gerente-geral da Righ Management Brasil e coordenadora da empresa para América Latina. Janet, da Vicunha, concorda. "Só o fato de sair já é importante. Mantém equilíbrio e ajuda a evitar estresse e atrito com outros funcionários." Para ela, quem abre mão "mostra que se concentra em uma coisa só, o que é ruim".
O diretor de marketing da Intel para o Brasil, Cássio Tietê, também está nesta sintonia. Casado com uma professora universitária e pai de duas filhas pequenas, ele valoriza muito o descanso anual que, no caso dele, é dividido em dois períodos, normalmente conciliando com as férias escolares. "É importante oxigenar, dar uma parada, colocar em perspectiva tudo que aconteceu. Além de ser lei, é saudável, principalmente, para um profissional de estratégia que tem um ritmo alucinante."
Além de dar atenção especial à família, Tietê aproveita os períodos que possui para atividades que, normalmente, não teria tempo disponível durante a rotina atribulada. "Faço cursos, atividades fora do convencional. Já fiz curso na Casa do Saber, um de culinária, tudo para me colocar em outra situação. A jornada de trabalho é tão intensa que não sobre tempo para isto", exemplifica.
Para Elaine, da Right Management, o sair de férias envolve algo que vai muito além de cumprir apenas um direito assegurado por lei. Ela afirma que é preciso um descanso com qualidade e alerta: "se o profissional não está muito contente em uma posição, o tempo de estresse é encurtado. Ele precisa de férias para recarregar as baterias." O ideal, aponta a executiva, é uma conversa entre empresa e funcionário para acordar o melhor momento para o descanso - algo que Janet e Tietê parecem já ter incorporado à rotina.
É preciso desligar
Contudo, atenção: o termo sair de férias, ainda que não haja um plano de viagem envolvido, deve ser levado a sério. De nada adianta o funcionário deixar o escritório para dez, 15 ou 30 dias de descanso e, em casa, continuar envolvido com a rotina empresarial. Desligar-se é necessário para que corpo e mente possam, realmente, ficar livres da pressão. Isto é fácil? Não, principalmente, quando falamos em executivos do chamado C-level. Mas um esforço neste sentido é fundamental. "Cientificamente, está comprovado que são necessários 15 dias para descansar. O fato é que muitas pessoas saem de férias e não se desligam do trabalho, se envolvem em situações e respondem e-mails", observa Elaine.
A situação descrita pela especialista pode decorrer de receio ou mesmo de pressão vinda da própria corporação. No estudo da Robert Half, 17% dos executivos que costumam não tirar férias no período devido tomam tal atitude por achar que a equipe precisa da presença dele. Para Saad, da Robert Half, existem pessoas que ainda criam esta dependência do trabalho, superestimando a importância do cargo. "É um problema quando o profissional sente a obrigação de não sair, por achar que as coisas não vão andar bem. As pessoas são substituíveis e o negócio anda."
Oswaldo Poletto, gerente de TI do Grupo SEB do Brasil, costuma tirar férias, mas demora a se desligar. No entanto, ele já ficou três anos sem o descanso, devido ao envolvimento em um grande projeto de sistemas de gestão. Apesar de não tirar 30 dias, divide o período da seguinte forma: dez dias no meio do ano, dez no final e os demais ele vende.
Poletto revela que, com notebook e celular, acaba dedicando uma ou duas horas para checar e-mails, mesmo a contragosto da esposa. "Não consigo me desligar totalmente. Em julho, eu viajo para a Serra Gaúcha e no fim do ano, normalmente, para o litoral, mas em todos os lugares têm internet e fico tentado." Apesar disso, ele sabe da importância do descanso: "já passei sem, mas tem de pensar na família, no físico e na saúde como um todo."
A diretora de vendas e canais da Citrix, Erika Ferrara, é outra que tem uma rotina muito atribulada e nem sempre consegue se desligar totalmente. Por conta da demanda da empresa, divide os 30 dias em três períodos e costuma tirá-los a cada início de trimestre, quando o dia a dia está mais tranquilo. "Como saio por períodos curtos, acabo viajando e é uma forma de me desconectar rapidamente. Quando permaneço em casa, fico meio online", pontua. Trinta dias corridos ela diz que nunca tirou, mas houve um momento quando se afastou por 12 dias. "Minha equipe está comigo há três anos, tem uma relação de confiança. Deixo um responsável e não tiro férias junto com meu chefe."
Apesar disso, Erika sempre leva um token da empresa para acessar os e-mails, se for necessário, e, apesar de deixar o celular desligado, avisa os subordinados que, em caso de problema, eles podem enviar mensagem de texto. "Em julho, estavam com um problema e me envolvi no assunto, falei com cliente. Se precisa, entro em ação, mas 90% dos casos eles resolvem." E, mesmo com estas ações pontuais, ela reconhece que precisa tirar férias, senão não produz e se estressa.
E quem não tira férias, resume o gerente da Robert Half, não é bem-visto na maior parte das empresas. "Como ser bem-sucedido, se não administra o tempo e não aproveita o que conquistou?", questiona. Para os consultores, nestes casos, a própria liderança fica comprometida. Mesmo que você seja aficionado pela empresa onde trabalha, pontue as questões profissionais elencadas nesta reportagem para apoiar sua decisão sobre férias. E não se esqueça de pesar o lado pessoal e valorizar a atenção dispensada a seus familiares. Afinal de contas, como ensina Fábio Saad, "a empresa valoriza quem produz, assume responsabilidade e se organiza." O mercado já não olha mais quem apaga a luz.