A adequação da Europa ao International Financial Reporting Standards (IFRS), ocorrida em 2005, é apontada por especialistas como um modelo para a transição do Brasil. As firmas de consultoria nacionais “importam” auditores para guiar o novo padrão contábil brasileiro, mas têm, ao mesmo tempo, o desafio de não importar junto os erros que atrapalharam a adequação naquele continente. Entre os problemas que devem ser evitados está a falsa impressão de que o IFRS é um padrão simples e que pode ser deixado para a última hora.
Em entrevista exclusiva ao Financial Web, o sócio da Ernst & Young, Paul Sutcliffe, afirma que os europeus postergaram a migração e só conseguiram respeitar prazos porque dispunham de profissionais dispersos no mercado que já conheciam o IFRS. Segundo ele, uma realidade totalmente diferente da brasileira. “A solução de Londres não está no Brasil e isso é motivo para fazermos treinamentos”, explica.
A entrevista com a Ernst & Young é a terceira parte do especial sobre IFRS do Financial Web, que tem como principal objetivo mostrar os desafios da adequação para os empresários brasileiros. O especial abrange também uma corrida paralela: o investimento das grandes firmas de consultoria para atender à crescente demanda brasileira. Veja a íntegra de entrevista:
Financial Web: Qual é o grande desafio para as empresas durante a transição?
Paul Sutcliffe: O mais importante é a contabilização de instrumentos financeiros, que é muito difícil. Brincamos que, se você ler a norma sobre instrumentos financeiros e entender, tem que ler de novo porque, na verdade, não entendeu. Ela não foi bem aplicada na Europa e, por isso, alguns empresários tiveram que republicar seus balanços.
As divulgações são grandes riscos. Todos sabem que o cálculo do lucro vai ser outro. É preciso anunciar o que exatamente vai mudar e fazer requerimentos para coletar informações que, atualmente, a empresa não gera. É mais que um ajuste contábil.
FW: Esse tipo de adequação é um trabalho contínuo? Quanto tempo tende a levar?
PS: É um trabalho contínuo, que nunca pára. A primeira fase depende da complexidade das empresas. As indústrias podem levar mais de um ano se tiverem muitas atividades fora do País. Operações nas Américas do Norte e Latina darão trabalho, mas geograficamente ainda é um trabalho menos complexo.
FW: E como uma firma de auditoria deve se preparar para atender essa demanda?
PS: Existem vários métodos de acompanhar essa demanda. São duas coisas principais. Na Ernst & Young, muitos treinamentos foram pagos na Europa em 2003, 2004 e 2005. O que é importante para dar uma base.
O segundo passo foi a transferência para o Brasil dos profissionais em 2005 depois da conversão para o IFRS na Europa. Quem já viveu essa mudança que aconteceu lá sabe quais são os desafios para implementar aqui no País, para ajudar os clientes.
O problema do IFRS é que não é uma coisa parada. Se você quer aprender francês, a língua evolui, mas, na realidade, é uma coisa estável. Já o padrão contábil está sempre mudando e são grandes novidades. É impossível treinar uma vez só. No mês que vem, por exemplo, vou à Europa para um treinamento global.
FW: E que erros cometidos na Europa vocês pretendem evitar aqui no Brasil?
PS: A conversão na Europa foi em 2005. O anúncio, em 2002. Mesmo com três anos de aviso prévio, nos primeiros, ninguém fez nada. Pensavam: “dá pra fazer no ano que vem”. O que houve foi falta de planejamento. Depois foi correria.
Em Londres, você tem grandes recursos, muita gente autônoma que conhece o IFRS. Muitos australianos, sul-africanos, etc... Mas a solução de Londres não está no Brasil e isso é motivo para fazermos treinamentos.
O Brasil tem o prazo até 2010 para as empresas de capital aberto, mas companhias como Itaú e Gerdau já publicam. E outras estão começando a pensar. Têm algumas bem avançadas, mas outras ainda não começaram essa viagem.
FW: Quantos profissionais atendem a adequação ao IFRS na Ernst & Young atualmente?
PS: Toda a área de auditoria está aprendendo IFRS. Temos entre 20 e 30 pessoas especializadas. De qualquer forma, todos treinam. Isso sempre foi um investimento paralelo. Sabíamos que o padrão internacional seria algo com que todos mexeriam no futuro.
FW: Desde o anúncio de adequação ao IFRS, já há uma real diferença na demanda?
PS: Diariamente, eu recebo ligações sobre novos trabalhos, dúvidas que precisam ser esclarecidas. Estamos otimistas de que o alvo, no final de tudo isso, é algo bom para todo mundo. Quando chegarmos ao padrão internacional, as empresas que querem atrair capital estrangeiro terão mais chances. Hoje, um investidor de fora pega um balanço brasileiro e não entende. Se ele usa as normas[internacionais], saberá que ”X” é “X” e que pode confiar.
FW: E existem previsões de crescimento interno e de mercado por conta da adequação?
PS: Nossa empresa cresceu muito nos últimos três anos, pelo menos 20%. O mercado de consultoria está crescendo, ainda mais por conta da Lei 11.638, a Lei das S.A.s, que também vai forçar e ajudar um crescimento das auditorias. Na realidade, o que me preocupa mais do que ganhar novos trabalhos e clientes é achar bons talentos. Isso é muito mais difícil.
A mudança para IFRS vai ser mais difícil porque nos GAAPs britânico e francês não houve grande diferença. E, entre o BR GAAP e o IFRS, o pulo é um pouco mais longo.