Diversos fatores podem influenciar positiva ou negativamente a adequação de companhias brasileiras ao International Financial Reporting Standards (IFRS). No entanto, um deles é considerado decisivo do início à fase de manutenção do projeto: o conhecimento. É o grau de valorização e de investimento na equipe que define a possibilidade de uma adaptação estrutural ao novo padrão contábil ou a necessidade de apoio contínuo de uma consultoria.
Em entrevista exclusiva ao Financial Web, o sócio responsável por Auditoria Brasil da KPMG, Pedro Melo, defende que a primeira fase da adequação é fundamentada na capacitação. Mas, no longo prazo, isso não basta. “Não dá pra viver só de órgãos reguladores e iniciativa privada treinando pessoas. O setor de educação, a academia, precisa mudar, assim como fez o padrão contábil. Esse é um tema muito pouco tocado no Brasil”.
A entrevista com a KPMG é a segunda parte do especial sobre IFRS do Financial Web, que tem como principal objetivo mostrar os desafios da adequação para os empresários brasileiros. O especial abrange também uma corrida paralela: o investimento das grandes firmas de consultoria para atender à crescente demanda brasileira. Veja a íntegra de entrevista:
Financial Web: O trabalho de adequação ao IFRS é pontual ou contínuo? Quanto tempo leva?
Pedro Melo: Primeiro, vem um ano de trabalho pontual de conversão à regra: mexer em sistemas de projetos, treinar pessoas e de apresentação para os investidores. É de trabalho mais pesado e mais amplo: processos, tecnologia e informações públicas. É um esforço muito grande de comparação entre o que se tem no momento e o que se pode fazer.
Depois, há um segundo ano, de ajustes, e um terceiro, de regularidade. O tempo empenhado depois do primeiro esforço depende de treinamento, se mais pessoas vão se interessar em fazer a manutenção, por exemplo. Porque há também a opção de a companhia ficar dependente de fatores externos [consultoria].
Resumindo, o primeiro momento é de grande trabalho, o segundo é de mais treinamentos, acerto de processos e um esforço bem menor. No terceiro ano, já é velocidade de cruzeiro.
FW: Qual é o maior desafio para uma empresa que está no processo de adequação?
PM: São dois. O primeiro são os parâmetros para você poder enxergar o que muda. O Brasil precisa se adequar e quem ficou incumbido foi o Comitê de Pronunciamentos Contábeis (CPC), que emite as regras sobre o que vai acontecer no padrão brasileiro nos próximos dez anos. Já existem normas internacionais testadas e divulgadas, que devem ser as aplicadas hoje porque as nacionais ainda estão em formação.
O segundo grande desafio é que o conhecimento do padrão internacional ainda é pequeno no Brasil. É um desafio de capital humano, daí a importância. As empresas estão estudando o IFRS. Para as firmas de auditoria isso não é novidade. Só que antes havia um volume menor.
FW: Que erros cometidos na adequação européia devem ser evitados aqui no Brasil?
PM: Um debate que surgiu [na Europa] era que a mudança não era suficiente até que se tivesse um alinhamento com a regra contábil americana. Porque senão ficam dois padrões que podem ser diferentes e causar confusão. No entanto, atualmente, os Estados Unidos estão fortemente empenhados para entrar em equilíbrio.
Um segundo item relevante é que o IFRS está baseado em substância e não regra. Ele é o princípio e pode ser que em um mesmo setor da indústria, duas companhias o interpretem de maneiras diferentes, o que traz um problema que só se resolve com o tempo. As diferenças existiram na Europa, mas nada que tenha assustado.
Outra coisa é que não dá pra viver só de órgãos reguladores e iniciativa privada responsáveis pelas pessoas. O setor de educação, a academia, precisa mudar, assim como fez o padrão contábil. Esse é um tema muito pouco tocado no Brasil, já tem faculdades satentas a isso, mas não muitas iniciativas.
FW: E quais serão os benefícios da adequação ao IFRS?
PM: A melhora do Brasil na governança já teve um impacto positivo externamente. O fluxo de recursos para cá já é muito grande. O alinhamento da política contábil externo vai nesse sentido.
Eu só deixaria uma mensagem para o mercado em geral: o IFRS não se resume a um debate da área contábil, é algo importante. Ele impacta na forma com que as empresas se relacionam em processos internos e com o mercado. O IFRS não é apenas uma conversa de grupos de contadores. Ele afeta resultados.
FW: E quais soluções a KPMG oferece aos empresários?
PM: Os produtos se dividem em três grandes blocos. O primeiro é conhecimento e conversão: as empresas que querem mudar o padrão precisam de aconselhamento e ensinamentos para saber como adaptar seus processos nos sistemas de gestão. Entender qual é o efeito na demonstração financeira.
O segundo bloco é a execução da auditoria em si. O terceiro é treinamento: seminários dentro das empresas e abertos para transferência de conhecimento em IFRS.
FW: O aumento da demanda deve acirrar a concorrência e de alguma forma modificar a estrutura do mercado de auditoria?
PM: Tem lugar para todo mundo. Como a KPMG enxerga o ganho qualitativo, queremos que todos atuem com alto nível porque isso afeta o mercado de capitais. A KPMG incentiva os concorrentes para que invistam tanto quanto a gente tem investido. Não queremos o contrário.
FW: Como as empresas vão se comportar?
PM: IFRS não é apenas uma conversa de contador. Vai mudar a forma das demonstrações financeiras. Pode ser que mude tamanho do lucro, de ativos passante e circulante e remuneração variável, que parte do cálculo contábil.
Muitas empresas já estão interessadas em conhecer. Nesse primeiro momento, exige-se aderência total do contador. Isso traz um embate tributário.
Não temos medidor específico [de demanda]. O que se sabe é que o volume se altera até porque estão impregnadas dentro do processo. Muita empresas já são assessoradas pela KPMG e apenas incluem a transição no projeto.
FW: Como é a preparação para atender à demanda de adequação ao IFRS?
PM: Para a KPMG, essa preparação já existe há algum tempo. Temos clientes na Europa que já usavam o padrão. A KPMG do Brasil precisava conhecer o IFRS, do ponto de vista brasileiro. Nós já tínhamos profissionais capacitados com o objetivo de servir. O padrão internacional não é um mundo desconhecido.
Nós aceleramos um plano de conhecimento de IFRS que tem um grupo de especialistas de 30 pessoas. Eles estudam as normas e aquilo que sai de novo sobre o tema, estão integrados na rede internacional do IFRS para debater. Nós estamos ampliando para toda a base atual de auditoria.
Há dez anos, não tínhamos nem dez especialistas para servir companhias internacionais com subsidiárias no Brasil. Agora há a previsão de treinamento internacional para toda a base em dois anos.